Navegante

A - Ondas

Tudo em mim é tenso
vida pesada.
Demais para carregar
onde olho vejo sacrifício.
Tento desapegar 
do lado negativo das coisas 
e procuro 
sem sucesso
um bem estar e bem me quer
longe
sempre longe.

Pareço me arrastar
diante do mundo
distante de mim e 
me perco nas variantes
de ritmo, frequência e velocidade
impostas ao meu corpo
designado feminino. Estrangeiro.
O que quero me proíbem
o que devo não gosto
acompanhar não consigo
não Quero.

Desisto de seguir
resisto, persisto
acumulo seguidores, inimigos
na vida real
como muitas outras 
coisas
acumulo.


B - Balanço

Tudo em mim
é falso, falho, fraudulento
esgotável
temporário, efêmero.
Tudo em mim
é nada
unha quebradiça
vida postiça
caíram-se as portas dos armários
até para as dobradiças
fica insuportável o abre e fecha
abre e fecha
abre e fecha.
Enteada
um pestanejar
órfã, agregada
um título para cada marca de tempo.

O boicote me escolhe
o motim seleciona
a revolta convoca
e a luta toma conta.
Talvez conte mais que deveria
ou que eu mesma
saberia falar. Se não investisse
tanto tempo em auto sabotagem.
Olhos pequenos
grande visão
escassa a ciência da palavra
intuição
que colabora e me incorpora
criação ou psicografia
interrogação.
Um grupo pequeno delas
repetição
trânsito e atrasos 
à mercê.

Transito entre a imagem que querem
que arrancam
e o que desejo ser
que impedem
e quando penso que estou Sendo
desconheço, desmancho
amanheSer.

Entendem meu expressar como um "só"
querer se aparecer.
Um resumo vulgar
mas não totalmente errado.
Aliás, porque deveria gostar do anonimato?
Porquê não posso deixar de ser invisível?
Até quando terei que pedir permissão
para existir?
Talvez as respostas estejam no refrão
das músicas de quem me julga.
Ok! É preciso domínio
em uma das sete linguagens
mas meu talento na arte
é romper barreiras, barragens.


C - Ciclone

Minha meta é morfose
dispenso essa liberdade cirrose
Brasil: padrão de beleza = lordose
virgindade de homem é fimose
prefiro atração por osmose
nem todo fetiche é funcional.
Vou parar bem no meio desse texto
para falar de poesia
aquela que vem quando a gente sente
saudade. 
Da que sinto quando penso em você
quando quiser venha me ver
será muito bem vindo
só não venha para ficar
sou fácil, me entrego
e mudo rápido de ideia
troco de trabalho, a cor do cabelo
escolhas, experimentos
minha preferência é ficar. E só!

Quando o povo tomar o poder
será o "Hoje é dia de maldade!"
que estou esperando.
Nunca diga nunca
mesmo que faça tarde
minha religião é a arte
vivo de acordo com minha idade
porque beleza e juventude
são estado de espírito
sou afro indígena e resisto
pois reduziram 
a quantidade de melanina da minha pele
implantaram o colorismo
mas não cortaram minhas raízes.


D - Ressaca

Uma planta
só da flor quando está pronta
água em excesso afoga, sol em excesso
resseca
quer vê-la flor-e-scer?
dê tempo à ela.

Quer ajudar
espere
observe
admire
e acredite!
Jardim, é resultado de muita
muita paz-ciência.
A-mar é respeito
do espaço, do tempo
e do jeito de cada coisa.


E - Desastre natural

Estou à terrível espera de um acidente.
A gente se esbarrar no supermercado
ou na estação de trem Guaianases
e num abraço apertado
rápido
mas apertado
matar essa saudade
que alaga meu peito.


F - Fatalidade

Para todas as alternativas anteriores.


Nina Barbosa
03/01/2021


"Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido..."


Poesia presente no Zine =1Elo n.4






































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