Controle remoto


 A todo tempo 

tem alguém me pedindo calma

Mesmo quando estou quieta e calada

Me querem sempre doce, sorrindo 

perdoando, aceitando e falando sim


E qualquer coisa que eu faça 

mesmo que para se defender 

saio como louca e desequilibrada


Pra trabalhar 

Deixo meu filho dormindo sozinho

E o pai curtindo a vida 

com brecha na lei assinando embaixo 

vizinhas ameaçam chamar o conselho 

e eu penso pedir as contas 

e morrer de fome em casa.

Chefe de família concilia emprego 

com bico, 

compromete todo o tempo

e continua sem dinheiro e estressada


Aqui não tem pensão alimentícia, 

visita ou guarda compartilhada 

Quer conhecer a fúria de uma pessoa 

Deixa ela trancafiada

Quer conhecer a fúria de uma mulher 

mexe com o direito dos seus filhos 

Eu sou uma bomba relógio 

Mina, de campo minado

Eu quero revolução francesa 

Nada menos que cabeças cortadas


Fujo de rivalidade feminina 

porque já tem um sistema inteiro 

contra a gente 

“E pode pá que não me atrasa 

o progresso de ninguém”

Na infância Barbie, Xuxa e Sandy 

Ensinaram a me odiar de corpo e alma

Escuto N.I.N.A, MC Luana, MAC Julia, 

Duquesa e Julia Costa todo dia de manhã 

Para fazer as pazes com o espelho 

E conseguir encarar o dia

Como uma mina empoderada 


Mulheres brancas classe média da MPB 

já foram minhas referências de como

se entregar sem limites, romantismo, 

servidão e submissão disfarçado de afeto. 

Enfia sua dica de homem branco cis onde quiser

 porque você não sabe onde meu calo aperta.


Filha de caboclo e de cafuza

cresci sem subjetividade

Sabe o que é se olhar no espelho e não se ver

Não saber quem é de verdade 

Qual é sua origem, odiar a própria imagem 

Eu já quis morrer, acordava chorando 

porque ainda estava viva. 

Usava as últimas forças que tinha 

para alimentar as crias


Eu tinha nojo de mim

Eu me achava um bicho 

Vários dias sem banho, 

entupindo o nariz de coragem 

E sobrevivi

Com a força da palavra de outras mulheres pretas, 

eu li muita poesia 

Dinha, Jeniffer Nascimento e Carolina Maria

Por isso estou aqui 

Muitas se foram

Minha mãe não suportou

AVC e pressão alta 

As várias jornadas de trabalho a matou


Lets’go baby reforçar o machismo 

Até pra favela vencer

Usam os corpos das mulheres 

É bunda isso, é puta aquilo 

É por isso que estou me blindando

E me fortalecendo com a escrita 

Eu sei que vou morrer um dia

Mas não será nas mãos dos machistas 


É por isso que estou 

me eternizando em algumas linhas

em 2022 meu primeiro livro tem 70 poesias, 

2023 saí em mais 3 antologias

E tem mais 4 caixas de texto em casa 

me esperando para fazer a reescrita.

É como disse Iamidria 

“vocês me devem anos de terapia”

Porque vocês me querem morta

Mas eu me quero viva, 

feliz e fazendo rima.


15/11/24


Mais vistos