Feridas
O atrito traz a realidade
profunda e carnal
a dor, me transporta
para outro lugar.
O dedo aponta, cutuca e machuca mais
o sofrimento desperta sentimentos
no curativo, a esperança e a fé
com a casca, a convicção
de que vai passar, vai mudar.
A cicatriz na pele, no pêlo, no peito
marca e remete a memória
das lembranças que ficou para trás.
Começo um caderno novo
e antes que preencha todas as folhas
antes que reescreva as papeletas
as frases espalhadas, os temas
antes que consiga perceber
virou rascunho
abrigo de angústias
morada de pensamentos.
O incômodo e a satisfação
oferecem doses de euforia
com sensações diferentes
na mesma proporção
positivo e negativo
diferentes, opostos, ainda energia
como a bateria que perde a carga
e continua sendo bateria.
Muito de mim, recuperei
outras, já era hora de descartar
algumas,
passaram do tempo
arquivei.
Posso ver melhor o que sou
o que gosto
o que quero
no que restou
no que chegou
no que ficou para trás.
Se meu estômago sentisse
me odiaria
se minha genitália falasse
gritaria: Me consumam!!!!!!! Até o final desse dia!
Privei por muitos anos realizar-me com a derrota de meus inimigos. Nem os via assim, nem os reconhecia como tal.
E por quanto tempo armaram contra mim, roubando, empurrando, difamando. E eu achando ser por acaso ou mal entendido, sem querer.
Senti a maldade em mim para aceitar que existe no outro e pude nos ver de forma integral, plena.
Aliás, despertou através de um homem, de suas mãos, duas, três socos no olho da primeira vez, vários em cada olho numa outra vez, revezando e acertando enquanto me olhava rancoroso, sanguinário. Traído pela minha desobediência.
Suportei deboche, suborno, chantagem e competição. E ainda continua a defender que é preciso amar como se não houvesse amanhã segundo o canto, meu hino.
Que esse amor seja o próprio
em primeiro lugar.
Nina Barbosa
13/01/2021