Sequelas
Meu sangue garante as próximas gerações.
Peça indispensável desse jogo armado com homens desempregados, trabalho infantil, gravidez na adolescência, juventude mastigada, população negra encarcerada, terceira idade descartável, entre outras formas de opressão.
As mulheres? Cuidando dos sobreviventes dessa guerra não declarada, onde vendam nossos olhos e nos convencem que a culpa é nossa.
Nos olhemos. Unidxs nessa grande massa, separados pelos conflitos. Maioria em população sem representatividade nos torna minoria política com direitos violados.
O suor que enriquece a elite pagou as próprias cartas de alforria e pagou para libertar os seus:
As rodas de capoeira que até hoje chamam de dança, as entidades africanas que pensaram ser santos brancos nas imagens, resistiu a dominação que matou muitos dos nossos mas não deu conta de apagar nossas raízes.
Reservaram para mim e minhas irmãs um abismo chamado solidão, trabalho árduo e sofrimento - covardes!
Haja terra para preencher essa cova profunda da desigualdade. Enquanto isso...
No lustre dos castelos que entopem nossas veias desde os contos de fada até a novela das oito. Desde o cavaleiro com espada até a mansão com champagne, a propriedade é privada e nos é privada enquanto privam nossas vidas à espera do felizes para sempre que sabemos bem só existir através da justiça e não do matrimônio como tentam nós ludibriar. Nos falta poder e não força.
Essa terra que não tem função social em moradia, alimento e em nenhum outro aspecto. Está apenas para os bens e seus donos homens do bem? Tornaram nossos corpos privado de liberdade própria e públicos, à serviço da nação. Estuprando mulheres, roubando, enganando e matando geral?
A favela venceu? Desejando a riqueza dos senhores brancos. O copão e a cinderela da favela ajuda pensar que chegamos ao topo. Mas no trono, quem está? Esse lugar nunca será nosso. Nem quero! Quero cabeças cortadas, anarquia e autogoverno. É um de-serviço o oprimido querer virar o opressor.
Nos querem distraídxs, as biqueiras ativas são prova disso, de quebra ajudam manter o terceiro setor em pleno funcionamento.
Nos dão espaço se for para evidenciar o atraso intelectual que nos provocaram e perpetua a pobreza. E para revelar as cicatrizes da escravidão e massagear o ego de quem nos causou tudo isso.
Queremos mais, estamos no front, nas redes sociais e na TV levando nossas pautas porque a favela vai vencer quando essa gigante senzala entender que aprender a ler é o primeiro elo da corrente que precisamos romper e dizer:
Não nos contentamos com essa escravidão moderna e chega de nos vender!
Chega de nos entregar!
Vamos nos recolher!
Vamos nos unir!
Vamos resistir!
Nos queremos de volta porque nossas sequelas serão o motor da nossa revolta.
Nina Barbosa
06/2020