Resiliência

    Eu dou o ar e refresco os pulmões dessa sociedade. Brisa, ventania e tempestade são substantivos femininos, pra quem não sabe.
     Ninguém vem à terra senão por mim. No meu ventre está o futuro da humanidade. A existência, a continuação, depende de nós, mulheres.
      Se eu não quiser ninguém mais nasce, se não quisermos, nenhuma mulher mais pari. Se não quisermos não haverá próxima geração. 
      Preservação da espécie? Entraremos em extinção!
      As vidas carregam nosso sangue derramado. 
      Como fosse pouco, depositaram o dia a dia nosso suor.
     O choro das crianças, a dor dos enfermos, os animais domésticos, esperam meus olhos, meus ouvidos, meu ombro, meu colo, meu consolo, meu calor.
      Estratégia que elimina as mulheres de espaços que possam exercer seu poder, excluindo nossa participação.
      Investem em clonagem não à toa e até agora não conseguiram substituir o corpo da mulher na formação de uma vida.
      Seres vivíparos não nascem de ovo. E não tem vendaval ou furacão que nos tire esse lugar.
      Aproveitando o panfleto - após o nascimento, a amamentação é a única parte natural entre o bebê e a mulher. E é sagrado e não obrigação. E tudo que vem após isso, tipo, o cuidado vitalício nada tem a ver com instinto materno. É cultural e foi aprendido.
     Nos controlam para usar nosso poder e nos silenciam tirando nosso direito de decidir. Os planos lucrativos da elite corre risco com a nossa liberdade.
     Para não dizer que não falei delas, somos nós as flores fugindo do jardim. O plano do Éden nos limita até certa parte e nunca quisemos enfeitar mesas de jantar, nosso néctar é melzinho na boca e isso fica a nosso favor.
     Calaram algumas vozes, roubaram alguns sonhos e adormeceram. Esquecendo que toda noite a lua chega e o sono renova as esperanças.
     A fábrica mantém seu ritmo e o levante que dizem: "Agora as mulheres estão" é resultado de séculos de organização.
     Sobrevivemos ao tempo, determinamos o clima e crescemos docemente resistindo como as fases da lua.
     Quando falam mimimi demonstram a falta de respeito com nossas necessidades.
      Nossa história carrega uma bandeira com letra bastão de BASTA! Queremos emancipação, não mais nós calarão.
       A palavra nos fez presente, mas preferiram esconder, marcamos presença e ainda que nos falte voz, seremos letras rompendo esse sistema.


Nina Barbosa
03/2020


























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