Mulher de base
Como pode ainda hoje
vários meios reforçar
que a mulher é sexo frágil
enquanto vive a carregar.
vários meios reforçar
que a mulher é sexo frágil
enquanto vive a carregar.
Desde menina lava, passa e cozinha sem reconhecimento
fora de casa tem o salário mais baixo do mercado e trabalha sem o devido aumento.
Comercial de margarina, vaga pra classe média e branca, serve o prato pra foto
mas não prepara a própria comida.
fora de casa tem o salário mais baixo do mercado e trabalha sem o devido aumento.
Comercial de margarina, vaga pra classe média e branca, serve o prato pra foto
mas não prepara a própria comida.
Mulher, de base, na base quando se vê na telinha está de avental, mucama
ou confidente da sinhazinha de quem guarda com esmero seus amores e conquistas.
Enquanto isso, no baile de favela, o bonde todo quer, depois de esvaziar a garrafinha
Naquele pique!
ou muito louca, muito louca, muito louca de balinha.
Corpo pra domesticar, heteronormatizar, carne pronta pra ser consumida - na cabeça deles
e na maioria das noites, a solidão é sua mais fiel companhia.
Cresce sem conhecer o próprio corpo, presa nas coreografias
falta vaga no posto, pílula do dia seguinte gratuita, fica pra história.
O que fazer na troca de remédio ou quando a camisinha estoura (interrogação)
Ela que carrega as cria no colo vai completar 20 anos de idade, do lado 2, 3, 4, a mala, as sacolas,
o pai?
Coragem, o homem covarde! A essa hora protagoniza outra história.
No face: Ano novo! Vida nova! Depois de abandonar as responsa.
No fórum, briga por pensão alimentícia, vai segurando as pontas com o cartão do bolsa família.
Responsabilidade - uma via na contramão. Tem pai de família procurando emprego e os que gasta o salário no bar - seu lugar de patrão.
Chefe é chefe né pai!
Na bica, um quebrão pra aguentar a pressão e curtir noitada, deixa filha sem pão pra gastar com a mulherada.
De mãe a avó, de filha ainda menor larga o emprego pra cuidar ou continua pra sustentar mais uma cria.
Ganham seus papéis de destaque: Top 10 da favela, top no ranking em chefe de família, top no trabalho informal, top em morte por aborto clandestino, topo da pirâmide de exploração. Tem beleza, mas não a chamam pra ser a top capa de revista.
Revoltado, o filho incitado quer acompanhar a moda, bate na mãe porque não ganhou o tênis de mil reais. Cansou, nem chuteira teve para jogar bola e acha que culpada é a mãe que largou ou não soube consertar o pai.
O bonde no apetite levanta cedo no maior pique, aposta 155, 157 pra montar o kit.
Cemitério, vaquinha pra bancar despesas funerais. Caixão lacrado pro genocídio praticado pelos generais e enterra um ente sem despedida.
Doente, o marido se interna em uma clínica e mais uma vez compromete a renda da família.
Nunca deu entrevista, enfrenta a revista vexatória. Leva jumbo pro filho, leva neta pra escola
sem apoio, ela pensa ir embora. Mas liberdade não canta quando se cuida de quem gosta.
Sem profissão não quer seus sonhos perdidos em uma esquina, escolha, no capital,
pra driblar a miséria passeia entre cárcere e cafetinagem, então evita.
Procura no templo um alívio pro seu sofrimento, precisa de refúgio e acolhimento pra cuidar dos seus.
Jejum, campanha e oração
sem perceber dedica mais uma vez a terceiros, o seu mais precioso tempo.
Quer terminar os estudos e quem sabe cursar a faculdade, deposita nos seus descendentes a esperança de sentir felicidade.
Realização, apostou na maternidade quem sabe com a mesa farta e filhos na maioridade lhe prospera um dia conhecer a liberdade.
Doa, se doa e não conhece ainda o significado de reciprocidade.
Como pode ainda hoje
vários meios forjar
que a mulher é inferior
pra nossa vida explorar.
vários meios forjar
que a mulher é inferior
pra nossa vida explorar.
Nina Barbosa
2016.