Uni-versos
Roda mundo, roda peão
trabalho pioneiramente de modo operacional
trabalho pioneiramente de modo operacional
e enquanto meus braços reproduzem o serviço decorado
e conservam a limpeza do prédio
minha cabeça continua a milhão
criando e decorando versos.
A vida é uma roda gigante
no alto contemplo o desafio de superar o medo
a força e o fôlego para a criação vem quando estou no baixo
perto do chão.
E eu, solo. A multidão de uma mulher só.
Dormir pouco é uma sina que me acompanha a vida
e viver com sono é meu castigo, sacrifícios.
Se quis sonhar tive que fazê-lo acordada e acumulei muitos deles.
A natureza não me escolheu para carregar protuberâncias corporais
meu exagero é querer pensar demais
pensar demais
querer demais.
As distrações modernas nos aproximam uns dos outros
em tecnologia e não no corpo a corpo
e nos afasta de nossos próprios pensamentos.
Através de compartilhamentos estamos ligados.
E a solidão habita cada vez mais feroz no peito
o consolo é vendido em garrafas, fumaças, em 1 grama.
É proibido refletir
é proibido questionar
motim à vista, aplicativos gratuitos controlam a situação.
Quem disse que quero chegar a algum lugar escrevendo?
Receber título, reconhecimento?
É que a escrita foi o melhor lugar que achei até agora
para habitar nesse confinamento.
Ordem de quem?
Progresso pra quê?
Até aqui, só o caos me favorece.
Mais amor por favor!!!
Pra entender que no ódio e na tristeza é que somos mais humanos
e enquanto procuramos a cura para nossos delírios
nossos líquidos fétidos carregam a continuação
e o transbordar da vida
e dos nossos sentidos.
Nina Barbosa
16/01/2021.
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