Memória biográfica

Nunca foi a garota popular
quieta e calada no canto da sala
evitou a lousa, correu de briga
não teve banca, pouco notada.
Observadora
se uma brecha se abria
num fio de ousadia
tímida se revelava
não, não era ouvida
até hoje copiada.
Passou cola de prova
emprestou lição de casa
não viu fama, foi amiga
aprendeu a ser parça.
Amores platônicos de coleção
aventuras noturnas se arriscava.
Criando e produzindo a vida 
pouco se produziu
faltou talento, esbanjou vergonha
nas fartas sobras
da autoestima baixa.
Sem saber da corrida
entre trapaças e goleadas
perde a largada e chega sempre por último
se recusa, se nega ser mulher do sapo
não acredita, nem beija
príncipe (des)encantado.
Palavras engolidas a pulso
fervem no caldeirão do tempo
faz sopa de letrinhas pra comer com o pão amassado.
Menina foi mulher
mulher, ainda é menina
reúne no mesmo corpo
doçura e acidez de uma fera ferida.
Não teve roupa da moda
foi contra-cultura
sem recursos pra usar anti-idade
vive em calça-justa.
Traz em sua bagagem
uns dobrados, uns trocados
arrancou da dureza
um discurso engajado.
Desconhece o sucesso
pouco saboreou
nos bastidores da lama
pintou e bordou.
Busca inspiração
nas letras de encarte
se renova na vivência e raízes de sua árvore.
Sua re-existência
a muitas influencia
pois da obra de arte
és a matéria-prima.
Deu o sangue, fez suor
hoje, é a poesia.

Nina Barbosa
04/2016





















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