Ecos(do)sistema

 vozes
se repetem
nos meus ouvidos. 24 horas por dia.
ouço de todos os lados:
cadê isso? quando aquilo?
você precisa fazer! porque deixa?
cobranças. pedidos
o como vai? como está?
esquecem. ignoram.
muitos pedidos
muitos
perdidos
na ilusão de que uma
apenas uma pessoa - a mulher - dá conta
de atender todas as necessidades de uma pessoa em desenvolvimento,
de várias pessoas,
de todas as pessoas da casa
da casa inteira
do quintal, das plantas, das roupas, dos alimentos, das compras, das contas, dos animais
um sistema perverso que não por acaso
centraliza as tarefas domésticas e de cuidados na mulher. na mãe
sem um mínimo de preocupação com sua saúde, seu bem estar, quem dirá seus sonhos
vamos ter que começar registrar os casos de pressão alta, infarto e AVC como feminicídio
a dupla, tripla, jornada de trabalho devem ser reconhecidas como o 6º tipo de violência contra a mulher
terão que incluir a saúde da mulher nas políticas de meio ambiente
vamos ter que aprender o ciclo da vida da mulher na disciplina de biologia, ecologia, ecossistema para entender que não há predisposição genética para submissão, casamento e tarefas de cuidado
terão que reconhecer na astrofísica que a vida no planeta terra só existe ainda pela dedicação infinita das mulheres
mudaremos a historia e os livros terão que acolher nossos gritos.
a elite detém o poder político das pessoas que vivem refém de um poder branco, masculino, binário e ocidental. Trono esse sustentado às custas de sangue, suor e lágrimas
a evolução humana começará de fato quando a humanidade aceitar que para alcançar o equilíbrio e a igualdade social a revolução precisa começar de casa 
devolvendo as atividades necessárias para a manutenção da vida para cada indivíduo
dividindo de forma justa
devolvendo a vida, a liberdade e dignidade para as mulheres.
e registrar que por séculos e séculos trabalhamos sozinhas e sozinhas lutamos por igualdade até hoje
tratadas como dotadas de super poderes
menos o poder de poder cuidar de si mesma.
meus castelos desmoronaram diante de tanta decepção e minha voz ecoa repetindo:
me mantenho em pé
nos manteremos em pé e na luta.

Nina Barbosa
12/08/2020

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